
Nos ciclos de fusões e aquisições, as grandes mudanças raramente acontecem de forma abrupta. Elas resultam de processos graduais de correção e realinhamento de expectativas. Nesse sentido, o mercado de M&A em tecnologia percorreu exatamente esse caminho desde seu pico, observado em 2020 e 2021. Após um período de ajuste de 2022 até o primeiro semestre de 2024, e uma retomada seletiva no segundo semestre de 2024 e 2025, o ano de 2026 marca uma transição clara em operações de fusão e aquisição: deixa a fase de recuperação e tem rumo à consolidação. Essa mudança é especialmente relevante no Brasil, onde o custo de capital, a necessidade de ganho de escala e a estrutura do mercado tornam o movimento ainda mais estrutural.
O ciclo iniciado em 2020 foi impulsionado por juros baixos, abundância de liquidez e forte apetite por ativos de tecnologia e digitais. Os valuations da época mais refletiam as expectativas futuras do que os fundamentos. A partir de 2022, a elevação das taxas de juros e o endurecimento das condições financeiras provocaram uma correção significativa. Já em 2023, o mercado global de M&A atingiu níveis historicamente baixos, e o Brasil acompanhou esse movimento. Operações perderam viabilidade por conta do custo de capital. Processos foram suspensos e empresas passaram a priorizar caixa e eficiência do que crescimento a qualquer custo. Embora difícil, foi um período transformacional: eliminou excessos e reforçou disciplina financeira.
A partir do segundo semestre de 2024, o mercado voltou gradualmente a funcionar, sob bases mais racionais. No Brasil, observou-se retomada principalmente nos setores de software vertical e fintechs, com protagonismo dos compradores estratégicos em vez de investidores financeiros. As transações passaram a se concentrar em empresas com geração de caixa previsível, posição competitiva clara e capacidade de escala. O capital voltou, mas de forma seletiva.
Nesse novo ambiente internacional para o M&A, o contexto brasileiro impõe desafios adicionais. Mesmo com perspectivas de queda, os juros por aqui permanecem elevados e a velocidade em que novas tecnologias aparecem — e se desenvolvem — exigem uma forte capacidade de adaptação, desenvolvimento e investimentos, especialmente para empresas de software e tecnologia de modo geral. Companhias menores tendem a ter menos capacidade de investir, seja em tecnologia, produto, ou escala, tornando-se alvos naturais de M&A, frequentemente a valuations mais descontados. Caberá aos fundadores decidir se continuarão assumindo o risco de atravessar essas transformações com menor capacidade de investimento e com potencial perda de competitividade, ou se optarão por realizar, total ou parcialmente, o valor construído ao longo dos anos.
Ao mesmo tempo, empresas mais estruturadas passam a ter prioridade no acesso a capital. Investidores continuam dispostos a financiar crescimento e aquisições, ainda que a valuations mais realistas — e distantes dos patamares observados em 2020 e 2021. Surge então outra decisão relevante para empreendedores: “dormir abraçado” com uma expectativa irreal de valuation, ancorada em ciclos passados, ou com capital para investir, fortalecer a empresa e manter um ciclo sustentável de crescimento.
É aí que a inteligência artificial entra em jogo. O foco migrou do entusiasmo inicial para aplicações práticas e ganhos mensuráveis de produtividade, tornando empresas com dados, tecnologia e modelos proprietários ativos estratégicos. No Brasil, isso é visível em fintech, software de gestão, SaaS verticalizados e serviços de tecnologia, onde aquisições passam a ser instrumentos de escala, eficiência e diferenciação competitiva.
A partir de 2026, o mercado entra definitivamente em uma fase de reorganização. Não se trata mais de retomar o passado, e sim construir plataformas mais eficientes, integradas e resilientes. A consolidação passa a ser guiada por sinergias reais, capacidade de execução e robustez financeira. Empresas que não conseguirem acompanhar esse nível de exigência tendem a buscar alternativa estratégica através de algum M&A, enquanto investidores deverão priorizar negócios capazes de transformar capital em vantagem competitiva.
M&A em tecnologia deixa de ser um movimento oportunístico a partir de 2026. Torna-se um meio para construir valor de forma duradoura e permanente. Após um ciclo de ajuste e uma retomada seletiva, o mercado brasileiro entra em uma fase mais madura, integrada às dinâmicas globais. O novo ciclo será menos espetacular, porém mais sólido — e nele vencerão aqueles que combinarem realismo e capacidade de execução e adaptação.
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